7
A etapa de comunicao de dados - o relatrio de pesquisa 
A cincia no  um jogo solitrio; tem muitos participantes. Nesse sentido no se tem uma explicao 
cientfica a menos que se possa prov-la para outros cientistas (McCain e Segal, 1969).  neste momento, 
ento, que se deve iniciar a etapa de comunicao de dados. 
O processo de pesquisa visa a produzir conhecimento, e conhecimento  um produto social a ser repartido e 
utilizado. 
Segundo Runkel (1972), um estudo de pesquisa  incompleto at que suas constataes e descobertas sejam 
comunicadas por relatrio ou por aplicao prtica. Quando o pesquisador termina sua interpretao de dados 
e1e tem a oferecer uma explicao cio fenmeno que estudou. E, no momento em que o pesquisador expe  
comunidade a pesquisa realizada, ele retorna ao ponto de partida  a realidade, o contexto social , e novos 
processos de pesquisa podero ser desencadeados. 
Podemos ilustrar esse processo dinmico utilizando o esquema 
da figura 7.1. 
Alm de ser uma maneira de informar s pessoas em geral (cientistas e leigos) sobre as descobertas cientficas, 
a etapa de comunicao cumpre o papel de tornar essas descobertas verdadeiras contribuies cientficas, na 
medida em que outros cientistas se inteiram delas e discutem-nas, seja apresentando crticas, seja 
apresentando sugestes para novas pesquisas. 
 somente quando uma explicao de dados  discutida, aceita 
ou refutada por um grupo significativo da comunidade, que passa a 
55 
de pesquisa hipteses 
ser amRlamente divulgada em jornais, livros e revistas cientficas, constituindo-se, ento, em um 
forte fator para o avano da cincia. Embora este avano no seja to simples, ou seja, linear, onde 
uma pesquisa gera automaticamente a seguinte,  indiscutvel que sem a comunicao dos trabalhos 
a Psicologia estaria muito aqum em seu desenvolvimento. Os trabalhos j realizados e divulgados 
so, em geral, pontos de partida para aqueles que se esto iniciando. Para maior discusso acerca 
do processo de desenvolvimento da cincia, ver Kuhn (1970) e Lacey (1971). 
A concretizao dessa etapa se d atravs da redao de um relatrio de pesquisa, dirigido 
primeiramente  comunidade cientfica, e que deve seguir regras visando a uma padronizao e 
facilitao da leitura. Tais regras sugerem a incluso, no relatrio de pesquisa, dos seguintes itens, 
que sempre devem aparecer na ordem abaixo apresentada: 
1. Ttulo, 
2. Nome do autor, instituio onde a pesquisa est vinculada, 
3. Sumrio, 
4. Introduo, 
5. Mtodo, 
6. Resultados, 
7. Discusso, 
8. Referncias bibliogrficas. 
7.1. Ttulo 
Deve explicitar, de maneira clara e precisa, o principal objetivo da pesquisa (em termos das 
variveis independentes e dependentes) e a populao que ele estudou (os sujeitos de pesquisa). 
Veja o exemplo: 
Efeitos de um programa remediativo de alfabetizao nos comportamentos de crianas da 1.a srie e da professora (Leite et 
ai., 1977). 
A varivel independente est explicitada: programa de alfabe tizao. 
A varivel dependente, tambm: comportamentos de crianas da 1a srie e da professora, e os sujeitos so 
crianas de 1a srie e professora. 
7.2. Nome do autor, instituio a que a pesquisa est 
vinculada 
Deve constar o nome completo do autor (ou autores) e a Instituio (Escola, Universidade etc.) a 
que o autor est vinculado enquanto pesquisador. 
Se a pesquisa tiver sido subvencionada por algum rgo ou Instituio que no aquela a que o autor 
 filiado, deve-se explicitai tambm, em nota de rodap.. Exemplo: 
(Ttulo) Incidentes agressivos na pr-escola. 
(Autoras) Marcia Faria de Castro e Ana Maria Almeida Car valho 
* 
(Nota de Rodap) * Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de So Paulo. 
7.3. Sumrio 
Texto que no deve exceder a 200 palavras, elaborado com o objetivo de apresentar as caractersticas gerais da 
pesquisa  o problema, o mtodo de coleta, resultados e principais concluses. 
H autores que sugerem a apresentao do Sumrio ao final do relatrio de pesquisa (Selltiz e colaboradores, 
1951); a maioria, porm, prope que o Sumrio aparea antes do corpo principal do 
Realidade 
Delineamento da 
Figura 7.1. 
dados 
Coleta de 
dados 
56 
57 
relatrio para que, a partir dele, o leitor possa decidir se a pesquisa lhe interessa ou no. 
Veja um exemplo de Sumrio: 
O objetivo do estudo foi avaliar como a percepo de pais e jrmos e o autoconceito de crianas variam em funo do 
sexo, idade e estrutura familiar. Os sujeitos da pesquisa foram 180 crianas (90 de cada sexo) de trs faixas etrias (5, 7 e 9 
anos) e trs tamanhos de famlia (1, 2 e 3 irmos). A amostra foi selecionada em 12 escolas particulares da cidade de So 
Paulo, aleatoriamente escolhidas. O instrumento utilizado foi o Teste de Percepo Social para crianas (TPS), elaborado e 
pr-testado pelas autoras. O teste consta de 15 itens, em cada um dos quais se apresentam duas caractersticas opostas, 
pedindo-se  criana para classificar os membios de sua famlia nestas caractersticas. A classificao  feita atravs da 
separao de um grupo de bonecos que representam uma famlia nuclear de composio idntica  famlia da criana. As 
crianas foram testadas individualmente. O principal resultado indica que existem diferenas significativas entre o auto- 
conceito de meninas e meninos. Tais diferenas vo de encontro aos esteretipos sociais vigentes e aumentam com a idade, 
o que mostra a influncia progressiva qte a socializao dos papis sexuais exerce sobre o autoconceito. Foi constatado 
tambm que a percepo dos pais e irmos  influenciada por esteretipos sexuais da cultura (Graciano, Silva e Guarido, 
1977). 
7.4. Introduo 
 a parte do relatrio de pesquisa que introduz o problema que ser estudado, as hipteses sobre o mesmo, e as razes 
para se estud-lo.  o momento em que o pesquisador discorre sobre a relevncia social do problema, as implicaes para a 
sociedade advindas da realizao da pesquisa e sobre a sua relevncia cientfica: 
que novos conhecimentos podero ser produzidos com o presente estudo. 
Na argumentao de por que a pesquisa  relevante cientificamente, deve-se citar e discutir as pesquisas j realizadas (a 
literatura da rea) e que se relacionam ao problema estudado, pois assim tem-se claro o quadro atual de concluses j 
encontradas e questes ainda pendentes, e o quanto a pesquisa em questo contribuir para o avano do conhecimento da 
rea. - 
Note nos trechos abaixo como estas citaes de pesquisas podem ser feitas: 
Desde os trabalhos de Baer e Sherman (1964) e Lovaas (1966) que demonstram o papel da imitao no desenvolvimento 
da linguagem, muitos outros se seguiram replicando e ampliando essa descoberta, e contriburam para que o conceito de 
imitao generalizada, proposta por estes primeiros pesquisadores, se firmasse de vez.. . (Ramos, 1979). 
Os estudos mais antigos acerca de desenvolvimento social a longo prazo foram revistos por Jersild e Fite (1939), que 
observaram dezoito crianas durante o outono e a primavera seguinte de um ano escolar. Nos estudos posteriores, que em 
geral examinaram aspectos especficos de experincia social a longo prazo, encontra-se a mesma tendncia (McGrew, 
19*81). 
7.5. Mtodo 
 a descrio de como a pesquisa foi feita. Divide-se em vrias partes. 
7.5.j. Sujeitos 
Deve-se explicitar quem so os sujeitos, quantos so e como foram selecionados. Qualquer caracterstica dos sujeitos, 
relevante para a pesquisa, e que os distinguiria dos outros indivduos, deve ser descrita (Rey, 1972). 
Veja um exemplo: 
Participaram da pesquisa 14 crianas de uma classe de jardim de infncia. A amostra se comps de 7 meninas e 7 meninos, 
cuja idade variava entre 47 e 75 meses. Todas as crianas da amostra estavam freqentando escola pela 1 a vez e 
compareciam s aulas pelo menos 3 dias por semana (Marturano, 1979). 
Deve conter uma descrio das caractersticas do ambiente onde se desenvolve a pesquisa. Vejamos um exemplo: 
A pesquisa foi realizada na Escola de 1.0 Grau do Instituto Esprita Paulo de Tarso, a qual tem a finalidade de promover a 
instruo e a socalizao dos menores internos no recolhimento mantido pelo Intituto... A sala de aula estava mobiliada 
com mesinhas e cadeiras para crianas, armrio, lousa, mesa e cadeira da professora (Marturano, 1979). 
7.5.2. Equipamento e material 
Esta seo deve conter uma descrio detalhada do(s) equipamento(s) e materiais utilizados, seja na coleta, seja na anlise 
de dados (perguntas do questionrio ou entrevista, documentos consultados, aparelhos utilizados  gravador, filme, video-
tape etc., computador, cronmetro, jogos etc.). Tais equipamentos e materiais devem ser descritos de modo a permitir a 
outros pesquisadores. reproduzi-los. 
58 
59 
7.5.3. Procedimento 
7 .7, Discusso 
Em geral, descreve-se, aqui, a situao de coleta de dados, em todos os detalhes relevantes, e na ordem 
cronolgica em que ocorreram. O importante  que fique claro o mapa dos caminhos percorridos pelo 
pesquisador para responder ao problema de pesquisa, de tal forma que outros pesquisadores, caso queiram, 
possam percorr-los tambm. Em um estudo sobre a realizao de um planejamento de uma sala para crianas 
excepcionais (Guidi e Rodrigues, 1982), o procedimento foi descrito da seguinte maneira: 
O procedimento constou de duas fases: 
1) Avaliao ambiental. 1  Identificao e descrio das caractersticas fsicas da sala de aula (espao fsico, 
mobilirio e sua disposio, iluminao e temperatura). 2  Identificao e descrio das caractersticas fsicas 
dos sujeitos, ou seja, peso, altura, distncia olho-cho, bacia-cho, cotovelo dobrado-cho, cabea-assento, 
olho-assento, ombro-assento, ndegas-perna, joelhop... 3  Identificao dos objetivos e funes da sala de 
aula atravs de entrevistas com o corpo administrativo da escola e a professora etc. (Guidi e Rodrigues, 1982). 
7.6. Resultados 
Deve conter um relato descritivo dos dados obtidos, acompanhado de figuras e tabelas. 
Deve-se descrever os dados de maneira suficiente para a fundamentao das concluses, que sero 
apresentadas na seo seguinte. Vale notar, entretanto, que o pesquisador no pode apresentar apenas 
aqueles dados que corroboram suas hipteses iniciais: 
ele necessita apresentar todos os dados relevantes, estejam ou no de acordo com suas idias, opinies e 
expectativas. 
Haver, como sempre, uma seleo de quais dados apresentar; nem todas as tabelas organizadas durante a 
anlise, por exempk., podem ou devem ser includas no relatrio. Mas esta seleo deve ser feita com base no 
problema de pesquisa formulado e no em escolhas pessoais do pesquisador. Mesmo que dados relevantes 
para a resposta ao problema de pesquisa no tenham sido coletados, por falhas ou imprevistos, o pesquisador 
deve mencionar o ocorrido. 2 
2 As sees de Resultados so, em geral, extensas, e por isso no anamos conveniente fornecer aqui um 
exemplo. Em qualqier uma das pesquisas aqui citadas voc poder encontrar um bom exemplo desta seo. 
nesta seo que o pesquisador apresenta as interpretaes de seus dados. Como j vimos anteriormente, isto 
inclui comparar os resultados da pesquisa com aqueles obtidos por outras pesquisas e teorias relacionadas ao 
problema estudado (ver p. 48). Inclui tambm apontar as implicaes prticas dos resultados, comentando as 
possveis contribuies advindas da realizao do trabalho. 
Vejamos um exemplo: 
(...)Os resultados destes estudos podem fornecer informaes teis sobre como planejar e equipar melhor 
uma creche. Podem ser particular- mente jmportantes para o treino e a educao de criana com problemas (...) 
(Smith e Connolly, 1981). 
Pode, ainda, abordar as dificuldades ou caractersticas de todo o processo que tenham interferido nas 
concluses obtidas. 
O pesquisador pode, tambm, nesta seo, levar suas concluses para um nvel mais elevado de abstrao, 
comparando seus resultados com aqueles previstos por toda uma teoria (e no esta ou aquela pesquisa). E 
aqui estabelece-se, ento, uma relao clara entre teoria e pesquisa. Esta ltima serve, em geral, como suporte 
emprico para a primeira, dando-lhe ou tirando-lhe a fora.  importante notar, contudo, que nunca uma 
pesquisa comprova uma teoria, porque esta jamais pode ser completamente comprovada (Lacey, 1964). Uma 
vez que a teoria (segundo definio de Rudner, 1974) cont minmeros hipteses complexas, de alto nvel de 
abstrao (distante do emprico, no continuum terico-emprico, como 
vimos na p. 50), apenas indiretamente comprovadas, e uma vez que entre essas hipteses e os dados empricos 
h, ainda, inmeros conceitos e definies intermedirias (como vimos na p. 51),  impossvel a comprovao 
da teoria em si mesma. Diz-se que uma teoria  provavelmente verdadeira ou provavelmente falsa, e a pesquisa 
 um importante instrumento (e, a nosso ver, o mais importante) na determinao desses graus de 
probabilidade da veracidade ou falsidade de uma teoria. 
Na etapa de discusso de uma pesquisa sobre comportamento verbal que realizamos, comentamos, por 
exemplo, sobre a dificuldade do mtodo experimental para o estudo da linguagem: 
As dificuldades que muitas vezes surgiram no controle preciso das condies experimentais, ... e a estagnao 
de quase 20 anos na produo de pesquisas que analisassem os operantes verbais de Skinner, possveis 
indicadores da inadequao ou insuficincia da metodologia experimental.. . clamam pela testagem de caminhos 
diferentes (Hbner DOliveira, 1982, p. 221). 
60 
61 
Com relao ao aspecto formal da seo de Discusso, alguns 
autores sugerem que se apresente esta seo juntamente com a seo 
de Resultados; isto pode ser feito, desde que no comprometa a 
clareza do relato, o que, alis, deve ser uma constante em todo o 
relatrio de pesquisa. 
7.8. Referencias bibliogrficas 
Embora seja uma seo de pura listagem de nomes de autores e livros, geralmente negligenciada por aqueles que se iniciam 
no mundo de leituras cientficas, trata-se de uma seo insubstituvel, essencial, pois  atravs dela que poderemos ampliar 
o conhecimento sobre o assunto, mediante a consulta s fontes, bem como verificar e analisar as afirmaes feitas pelos 
autores da pesquisa sobre os trabalhos de outros autores. 
Alm disso, esta seo facilita o acesso a trabalhos sobre determinado assunto (em geral, provenientes dos mais diferentes 
peridicos e livros), uma vez que eles aparecem listados em conjunto. 
Evidentemente, essas finalidades s sero atingidas na medida em que a referncia for correta. Sugere-se que as citaes 
sejam feitas segundo as normas internacionais institudas pela Organizao Internacional de Normalizao e pela 
Associao Brasileira de Normas Tcnicas e editadas pelo Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentao, a seguir 
apresentadas. 
7.8. 1. Artigos de revistas e outros peridicos 
Cite na seguinte ordem: 
a) sobrenome (em maisculas) seguido de vrgula e do(s) prenome(s) abreviado(s) do(s) autor(es) do artigo; travesso; 
b) ttulo do artigo; ponto; 
c) ttulo da revista ou outro peridico, grifado e por extenso (a menos que o editor exija ttulos abreviados); 
d) local de publicao (somente quando for difcil ou impossvel localiz-lo pelo conhecimento do ttulo, como no caso de 
revistas com o mesmo nome, publicadas em diferentes lugares); 
e) nmero do volume, em destaque; dois pontos; 
f) pgina inicial e final do artigo, unidas por hfen, vrgula; e 
g) data; ponto. 
4 As regras referentes  linguagem expressa em um relatrio de pesquisa so as mesmas exigidas para toda a linguagem 
cientfica. Releia a pgina 13, onde apresentamos tais regras. 
Exemplo: 
MARTURANO, E. M.  Caractersticas do comportamento no jardim de infncia: 1  Repertrio bsico. 
Psicologia 
5(1) 69-91, 1979. 
7.8.2. Publicaes avulsas (livros, folhetos etc.) considerados no todo 
a) Sobrenome (em maisculas) seguido de vrgula e do(s) prenome(s) abreviado(s) do(s) autor(es); travesso; 
b) ttulo da publicao, grifado; ponto e trs espaos; 
c) nmero da edio (a partir da segunda); ponto e trs espaos; 
d) local de publicao; vrgula; 
e) editor (nome da instituio ou editor comercial); vrgula; e 
f) ano de publicao; ponto. 
Exemplo: 
MEL.LO, 5. L.  Psicologia e Profisso em So Paulo. So Paulo, Ed. tica, 1975. 
7.8.3. Publicaes avulsas (livros, folhetos etc.) considerados em parte (captulos, 
fragmentos, trechos) 
a) Sobrenome do autor etc.; 
b) ttulo da parte referenciada (quando for o caso); ponto e trs espaos; 
c) partcula In:; 
d) ttulo da publicao, grifado; ponto e tis espaos; 
e) nmero da edio (a partir da s...nda); ponto e trs espaos; 
f) local de publicao; vrgula; 
g) editor (comercial); vrgula; 
h) ano da publicao; ponto e trs espaos; e 
i) pginas, inicial e final, ou indicativo, ou pgina determinada da parte referenciada. 
Exemplo: 
MCGREW, W. C.  Aspectos do desenvolvimento social de crianas na escola maternal, com nfase no 
problema de ingresso na escola. In: Estudos Etolgicos do Com portamento da Criana. So Paulo, 
Pioneira, 1981, p. 135-164 
Todas essas referncias bibliogrficas s podem ser apresenta das se tiverem sido citadas durante o relatrio 
de pesquisa. 
62 
63 
